Em 12 de outubro, cerca de 20.000 estudantes ucranianos saíram às ruas para
protestar contra a decisão do governo de permitir às universidades públicas
de introduzir novas taxas. Os protestos foram realizados em quinze cidades,
do Oeste ao Leste do país. As maiores manifestações se deram em Kiev, Lviv,
Carcóvia, Uzhhorod e Simferopol. Rivne, Ivano-Frankivsk, Zhitomir,
Kamyanets-Podolsk, Sumy, Khmelnitsky, Kirovograd, Lugansk, Lutsk e
Sevastopol também protestaram.
Os organizadores dos protestos foram o sindicato estudantil independente
“Ação Direta” (“Priama Diya” em ucraniano) e a “Fundação de Iniciativas
Regionais”. O “Ação Direta”, um sindicato de esquerda que luta pela educação
libertária, tem estado ativo na defesa dos direitos e interesses estudantis
contra a pressão das administrações universitárias, reformas neoliberais e
serviços especiais do Estado.
Há um ano, o “Ação Direta” foi essencial na organização dos protestos quando
o passado governo de Timoshenko tentou aprovar um decreto similar referente
a taxas adicionais para estudantes. Então, manifestações estudantis massivas
preveniram a adoção do controverso decreto. Agora, no final de agosto, o
novo governo de Azarov aprovou o Decreto 796 que permite à administração das
universidades instalar taxas para aulas perdidas; taxas para o uso das
livrarias, postos de primeiros-socorros, ginásios de esporte e internet;
para dissertações etc. As autoridades estão a ponto de aumentar as taxas
para moradia e reduzir o número de estudantes bolsistas, embora a
Constituição Ucraniana garanta formalmente uma educação superior gratuita.
Contrariamente às acusações da extrema-direta ucraniana de que algumas
pessoas no governo são anti-ucranianas, os ativistas estudantis
independentes enfatizam que o problema não está nas personalidades mas no
sistema em si. Eles vêem a introdução de novas taxas como parte da ofensiva
do capitalismo neoliberal contra os direitos sociais das pessoas, em
particular a juventude. Eles estão fazendo chamados para resistir a tais
medidas e querem estender sua luta.
Em Kiev, 2.000 estudantes participaram na marcha em direção aos prédios do
Conselho de Ministros e da Administração da Presidência exigindo uma
educação gratuita para todos. Entre seus lemas estavam: “Liberdade,
Igualdade, Solidariedade Estudantil!”, “O conhecimento não está à venda!”,
“As universidades não são mercados!”, “Abaixo os ministros, abaixo os
capitalistas!”, “Uma solução – Revolução!” “Rebelde, amor, não desista de
seus direitos”. Podia-se ler nas faixas: “Solidariedade Estudantil”, “Abaixo
as barreiras sociais!”, “Não entre em pânico! Junte-se a nós!”, “Lembre-se
de 1968”, “Não está à venda”, e em estilo orwelliano “Guerra é Paz,
Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força... Conhecimento é Mercadoria?”.
Próximo à residência governamental, os ativistas manifestaram suas
exigências de cancelar todo o decreto, não somente suas posições mais
ofensivas. Eles também leram a saudação de solidariedade do famoso autor
ucraniano Serhiy Zhadan, e destacaram a solidariedade internacional do
“Global Wave of Action for Education" e o apoio do "International Student
Movement". Uma grande quantidade do jornal “Ação Direta” e folhetos
invocando a luta e a auto-organização estudantil foram distribuídos.
A manifestação em Lviv foi talvez a maior. Reuniu, segundo várias
estimativas, de 5.000 a 7.000 pessoas. Unidos sob o lema “educação
gratuita”, os estudantes de Lviv marcharam em direção ao prédio da
administração regional, local onde realizaram o piquete. O prédio foi
atacado por pessoas desconhecidas que lançaram bombas de fumaça, tomates e
ovos. No entanto, no final o encontro terminou pacificamente.
Em Transcarpátia, na cidade de Uzhhorod, o protesto organizado pela
“Fundação de Iniciativas Regionais” contou com 600 ou até mesmo 1000 jovens,
um número enorme para a menor dos 24 centros regionais da Ucrânia. Sem
dúvida esta foi a maior manifestação que esta cidade presenciou nos últimos
anos.
Simferopol, a capital da Criméia, foi a primeira cidade a protestar contra o
controverso decreto do governo, já que a administração da universidade local
foi a primeira a introduzir “serviços pagos” deste decreto (mais ainda,
propôs inclusive algumas “invenções” próprias como por exemplo as taxas para
refazer os exames). No dia 4 de outubro, 500 jovens convocados por marxistas
radicais e anarquistas marcharam pela cidade para manifestar sua rejeição à
comercialização da educação. Eles se reuniram apesar da ameaça feita pela
direção da universidade de reprimir os ativistas estudantis. Uma semana
depois, o resto da Ucrânia se juntou aos estudantes de Criméia, e estes
saíram às ruas para uma nova manifestação, dessa vez um “flash mob”, para
confirmar suas exigências.
Em Carcóvia, segunda maior cidade ucraniana, mais de 300 estudantes
universitários protestaram contra as novas taxas impostas. Apesar do tempo
frio, algumas estudantes tiraram suas roupas para mostrar que o aumento no
custo da educação universitária deixará os estudantes de baixa renda
incapazes de continuarem seus estudos, forçando-os a “vender sua própria
roupa”. Uma performance parecida foi realizada em Rivne.
Enfrentando a raiva dos estudantes, o presidente Yanukovich anunciou que o
decreto do governo será suspenso. No entanto, foi revelado que isto é uma
mentira para acalmar os estudantes revolucionários. A campanha contra a
comercialização da educação não acabou.
A luta continua!